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quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Não precisamos de cura - precisamos de amor!


As pessoas que convivem com uma pessoa com deficiência sabem o quão verdadeiro é o ato de amar e, também, como é maravilhoso o ato de se doar. Quanto mais se doa, mais se tem, porque a doação vem do amor e o amor não acaba nunca. É preciso doar em todas as formas, doar amor, doar compaixão, doar carinho, doar conhecimento.


Não tenha medo de ficar para trás. Deixe que as pessoas estejam com você, que elas bebam do seu conhecimento, porque juntos somos mais fortes e quanto mais distribuímos o que temos, mais a energia da vida flui. Não guarde para depois o que você pode distribuir hoje, como uma carta na manga para ser o sucesso de amanhã. Deus abençoa aqueles que trabalham em nome do bem e que deixam de lado o ego para a delícia da simplicidade de trabalhar por um mundo melhor.

Estamos vivendo um momento em que todos tem acesso aos sites de pesquisa e querem saber uns mais do que os outros. A disputa pode ser saudável, desde que tenhamos a capacidade de respeitar o limite do nosso próximo. Mas devemos lembrar que cada pessoa é única e a verdade de um pode ser o fracasso para outro.

O mundo tem espaço para todos, por isso existem as mais diversas funções e as tantas outras que vão sendo criadas ao longo do tempo. Da mesma forma, existem vários tipos de beleza interior e física também. Uma pessoa pode olhar um homem em uma cadeira de rodas e pensar “pobre cadeirante”, mas sob outra perspectiva, esse mesmo homem sabe o quanto foi forte para seguir sua vida e continuar vencendo e, ainda, sob uma outra perspectiva uma mulher pode vê-lo como um homem forte e sensual. Não existem verdades absolutas. Existem formas de ver a vida.

Quando falamos em autismo, não falamos necessariamente em crianças. O autista cresce, se desenvolve, se torna um adulto e geralmente fica esquecido. Os autistas de grau mais severo muitas vezes ficam em casa, longe de tratamentos que ao longo dos anos vão tendo alta e a família carente, sem ter condições para pagar um atendimento particular, acaba sem opção a não ser aceitar a dura realidade que os acompanha. Por outro lado, temos os casos mais leves, os aspergers, que tem também infinitas dificuldades, problemas como não conseguir parar em um emprego, em manter um relacionamento, problemas com a sensibilidade sensorial e que, via de regra, como é bem inteligente em alguma área, passa por rebelde, displicente ou mal-educado. Os amigos lhe são raros, os parentes estão distantes e seus corações cada dia mais solitários acabam por vezes entrando em depressão e se entregando às ruinas de um transtorno que em momento algum foi escolha sua.

Autismo não é moda, autismo não é bonito, nem legal, tampouco, autismo não é feio, errado e nem precisa ser a ruína de uma família. O autismo é, em sua essência, uma forma diferente de ser, alguns casos com comorbidades que tornam tudo mais complicado. O autismo não é doença, não pode ser curado, mas pode ser melhorado como em qualquer outro aspecto da vida. Suponha que seu filho, ao invés de ser autista, fosse apenas rebelde e de personalidade difícil. Você faria de tudo para educá-lo e trabalhar nele o que ele tem de melhor, focar em suas habilidades e desenvolver sua capacidade de compreensão sobre as regras da vida. O mesmo vale para o autista, precisa empenho, dedicação e muita luta, mas sempre pode ser melhorado. Ainda que não haja possibilidade de desenvolvimento pleno de sua independência nos casos mais comprometidos, há de se melhorar a qualidade de vida e a satisfação do autista dentro de suas próprias limitações.

Fico triste quando vejo pessoas empolgadas com a possibilidade de “cura” de seus filhos ou netos, mas que não são capazes de amar sem preconceito e ficam tristes ou com vergonha do comportamento diferente que acompanha o autista.

Não precisamos de cura, nem de aceitação. Precisamos ser amados, compreendidos e respeitados em nossa forma de ver a vida.

Sempre vejo locais que adaptam, para uma breve inclusão, uma festa de aniversário, uma brincadeira na escola ou um brinquedo no parque, mas nunca vi um ambiente inteiramente preparado para o autista e que fossem convidados os demais para fazer parte de seu universo por alguns instantes.

Existem ainda muitas mudanças a serem feitas, mas vejo que estamos cada vez mais conquistando nosso espaço, mostrando nossas habilidades, nossa capacidade de nos desenvolver. Estamos conseguindo mostrar para o mundo o amor incondicional de um autista severo e o tanto de gratidão e desejo de viver que eles nos passam através do olhar. O quanto eles precisam conviver em sociedade, frequentar os locais públicos que lhes são seus por direito. As decisões das mães estão sendo mais respeitadas, muito embora, isso ainda seja alvo de duras criticas por parte daqueles que desconhecem o tema.

Vejo que, vagarosamente, estamos deixando de ser números e estamos sendo verdadeiramente reconhecidos como seres humanos que somos. Quanto mais insistirmos, mais teremos nosso espaço respeitado e até mesmo admirado pelos que são mais sensíveis e amorosos.

Mães, pais, avós, tios e tias, educadores, médicos... Precisamos de respeito, de tempo e de cuidado. O amor continua sendo o melhor caminho.

Beijo muito carinhoso, fiquem com Deus.

Kenya Diehl

Empresária, Escritora e Blogueira







quarta-feira, 11 de outubro de 2017

O dia das crianças em uma perspectiva autista


Dia das crianças é uma das datas mais delicadas do ano para os pais de crianças autistas. Me restrinjo aqui a falar sobre o autismo porque se trata de um funcionamento totalmente diferente do que se está acostumado quando o assunto é criança.


Geralmente existe uma expectativa grande por parte dos adultos para que os pequenos gostem dos brinquedos, dos passeios, das surpresas... Festas de empresas, de escolas, da comunidade. Situações que mexem com o coração do autista, porque via de regra, os gostos são bem peculiares.

Crianças autistas demoram mais a se interessar por bicicletas, tendem a gostar de tecnologia e definitivamente não se sentem confortáveis com surpresas. Tudo o que querem é a sua segurança garantida, as coisas devem ser previstas com antecedência, pois quando algo sai diferente do esperado é bem comum um ataque de ansiedade.

A simplicidade é a palavra-chave. Diversas vezes meu filho Guilherme preferiu a caixa do brinquedo do que o próprio conteúdo da embalagem. Já aconteceu também de ganhar um brinquedo e ir brincar com pedrinhas ou potes plásticos. Em outras épocas ganhava o brinquedo, mas achava uma função totalmente diferente da proposta e acabava inventando sua forma de interagir com a novidade, como colocar olhos e orelhas do “Mr. Potato” nos dedos dos pés e girar a batata no chão... Também passamos da fase em que ele queria desesperadamente algo, mas ao ganhar, brincava por cinco minutos e logo voltava para o habitual, como brincar com abajures, ventiladores e pequenas peças de veículos...

Sei que o início é angustiante, os pais querem a todo custo que seu filho autista interaja como as outras crianças, acreditam que se conviverem com pares da mesma idade irão acabar copiando sua forma “apropriada” de brincar. Obviamente a convivência é importante, mas o seu filho precisa ter a certeza de que você o ama assim como ele é. Deixe que as peças se encaixem com o tempo e que seu filho desenvolva a melhor forma de se sentir bem sem prejudicar a convivência com os demais.

Ser pais de filhos autistas envolve muito mais do que a compreensão de mundo do qual eles fazem parte. É trabalhar o orgulho, o ego, é desenvolver a humildade, a compaixão e a serenidade em efetivamente não se preocupar com o que os outros pensam. É colocar a felicidade de seus filhos acima de qualquer convenção social, regra ou costume.

Agora direcione sua mente para dentro da cabeça de seu filho, veja o mundo na altura dos olhos dele, veja como ele te vê, imagine-se incapaz de gostar do que seus pais querem que você goste, imagine-se distante e sem condições de entender as demais crianças, imagine-se apaixonado por ventiladores e ter que forjar o gosto por jogos ou brinquedos que não fazem sentido para você. Mais do que isso, imagine-se com medo, incomodado com o barulho, com o calor, com as perguntas que você não consegue ou não quer entender e, pior, imagine-se com o desejo gigante de dizer o que pensa, mas ainda não tem o desenvolvimento verbal suficiente para se expressar como precisa.

A vida de crianças autistas é mais angustiante do que parece. Desde cedo há a frequência nas terapias, o desajuste na escola, a cobrança de familiares, as intermináveis conversas que eles escutam sem poder ou conseguir dar palpite, mas que escutam e processam cada detalhe do que estão ouvindo. A pressão é grande, a solidão é maior ainda e a infância prolongada por um lado em contraste com o amadurecimento rápido demais tornam tudo ainda mais difícil.


Se ser pais de autistas é por vezes difícil, acredite, ser autista é um tanto quanto complicado. Não existe fórmula perfeita para interagir com o autista, existe respeitar o seu jeito de ser, não criar expectativas em cima deles, gostar do que eles gostam e lhes ensinar a dosar suas manias para que estas não se tornem vícios ao longo do tempo.

Evite a qualquer custo pedir para que sua criança responda para quem lhe perguntou algo de que ele não entende, ao contrário, mostre para a pessoa a melhor forma de se comunicar com seu filho.

Claro que não devemos optar por se restringir aos desejos peculiares de nossos filhos, uma de nossas missões é justamente lhes mostrar as infinitas possibilidades sobre brincadeiras e formas de se viver, mas vamos combinar, dia das crianças é um dia especial. Não lhe dê coisas que você sabe que não lhe serão uteis no momento e nem fique chateado se ele não der atenção ao que você preparou com tanto carinho.

É de suma importância que nossos filhos não se sintam responsáveis pela nossa felicidade. Para tanto, não lhe coloque sob pressão, apenas viva o momento, se tiver que brigar com o mundo por conta disso, então o faça! Mas não estrague o seu dia com sonhos que são seus e não de seus filhos.

Não existe limites para o progresso, cada qual dentro de suas capacidades, mas todos os dias, invariavelmente, podemos ter ganhos, ainda que imperceptíveis aos olhos dos demais, mas só o fato de manter a felicidade e o sorriso no rosto de nossos filhos já é uma boa parte do trajeto percorrido com louvor.

A infância deve ser doce e suave, época de muitas transformações e, crianças especiais, encantam ainda mais pela pureza de seus corações. São muito mais do que o olhar puro e verdadeiro, mais do que lindos sorrisos, mais do que alegria sem fim. Crianças especiais são guerreiras, desde cedo lutando contra o preconceito, problemas de saúde e noites não dormidas. Mas hoje, ah hoje! Não é dia de falar sobre isso, é mais do que um dia para as crianças, mas sim para pais, mães, avós... Para lembrarem de como seria sem graça imaginar o mundo sem nossas joias, que nos ensinam diariamente sobre a vida poder ser envolvente. Se soubermos olhar para o alto como eles olham, rir do que eles riem, desejar o que eles desejam... Então veremos um mundo mais colorido, como uma verdadeira aquarela e pintaremos nas telas de nossas vidas nossos mais lindos sonhos e também aprenderemos a decorar nossa alma... Porque ser criança vai além da infância. Ser criança é também ter lembranças de dias inesquecíveis que nos foram criadas com tanto amor.

Que possamos ser adultos responsáveis e que possamos semear as mais lindas flores, para que amanhã nossas crianças também tenham as mais lindas lembranças sobre os sonhos que os ensinamos a sonhar.

Feliz dia das crianças. Beijo muito carinhoso.

Fiquem com Deus.

Kenya Diehl

Escritora, empresária, blogueira


Facebook – Kenya Diehl


sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Asperger/Autismo de alto funcionamento - adulto antes da hora ou infância prolongada?



Me arrisco em afirmar que quase a totalidade das mães de crianças autistas concentra sua ansiedade em relação aos filhos no que diz respeito à fase adulta. Como será o futuro? Existirá independência? Terá sido válido todo os esforço, as noites sem dormir e uma gama de terapias que consomem tempo, valores altíssimos, distâncias percorridas, sonhos esquecidos? 
Assim como há o autista de alto funcionamento (asperger), também temos os casos severos em que há grave comprometimento do desenvolvimento como um todo.

Preciso deixar claro que cada autista em sua singularidade tem seus progressos, muitas vezes despercebidos por quem desconhece o transtorno, mas que para pais, mães, irmãos e demais pessoas que convivem é uma verdadeira bênção, como conseguir encontrar a felicidade em um brinquedo sem se estressar, ingerir alimentos com menor seletividade possível, dormir uma noite inteira e se sentir efetivamente feliz com sua morada nesta vida.

O autista de alto funcionamento, é aquele que tem melhoras significativas conforme o passar dos anos, os tratamentos, as medicações e o empenho e a adaptação da família/escola/terapeutas.
Muitas vezes passamos a idéia de infantilidade, incapacidade, alegria demasiada ou tristeza. Outras vezes parecemos sérios demais, sem um mínimo senso de humor esperado para a piada do momento.

Mesmo com déficits importantes em algumas áreas como por exemplo: hiperfoco em detrimento do olhar para o todo, extrema sensibilidade sensorial, excesso de afetividade ou distanciamento de possíveis relacionamentos, o autista de alto funcionamento não raro se destaca em alguma área importante da vida. Não chamo isso de dom, porque qualquer pessoa que se isolar do mundo e escolher uma atividade específica para se dedicar, certamente irá se sobressair naquela atividade muito mais do que pessoas que dedicam sua atenção a diversas áreas da vida. 

Você, leitor, que me acompanha há mais tempo sabe que tenho duas faculdades cursadas, ambas pela metade. Uma de direito e outra de educação física. Amo as duas áreas, mas o hiperfoco me impediu de concluir as disciplinas das quais eu não conseguia prender atenção de forma alguma.

O que observo no meu filho, nos meus amigos aspergers e em mim mesma é que, por um lado somos infantis demais. Há a demora para largar as fraldas, especialmente as noturnas, dificuldade de aprendizagem nos anos iniciais da escola - ainda que a alfabetização aconteça antes mesmo dos seis anos - e o diálogo inocente que uma criança de oito anos é capaz de transmitir com sua simplicidade e sinceridade, enquanto outros garotos já têm a malandragem natural e esperada para a idade.

Na fase adulta percebo que, em geral, nos falta uma adequação de comportamento com as pessoas, muitas vezes sendo diretos ao extremo ou nos doando integralmente para pessoas que nem sequer conhecemos, a paixão por desenhos animados, bichos de pelúcia e a carência afetiva. 
Por outro lado desde muito pequenos existe uma seriedade ímpar com cada compromisso assumido, a sensação de que o mundo vai acabar se não cumprimos o que prometemos e a rigidez de pensamento que nunca nos permitiu entrar nas brincadeiras infantis que tanto fazem bem às crianças. Desde cedo há a falta de entendimento com crianças da mesma idade, pois é praticamente regra que a criança autista prefira a companhia de adultos porque eles são menos imprevisíveis do que as crianças. Isso dá uma sensação de segurança e bem estar.

Desde muito pequena sempre estive cercada de pessoas com mais idade que eu, geralmente adultos, até o ponto de chegar à adolescência e passar a ser a chata que só conversa assuntos sérios, excluída pelos demais que querem curtir a vida e rir uns dos outros. Então aconteceu uma aproximação maior com os professores, funcionários e pais de outras crianças. 
Comecei a trabalhar aos quatorze anos, em uma fábrica que montava peças, área de produção, cheiro de cola... 

Aos dezesseis anos com 39kg
Eu morava longe do trabalho, em uma garagem improvisada que eu pagava cinquenta reais por mês, tomava duas conduções para chegar, sendo a primeira as 6:30 da manhã. Ia trabalhar, não almoçava porque o almoço era pago em dinheiro e eu precisava do dinheiro para sobreviver, pagar as passagens, o aluguel e os itens básicos de sobrevivência. As 17:45 eu ia a pé para a escola, cursava o oitavo ano do ensino fundamental e esperava a aula começar, cansada, com fome, com frio e sem amigos. No final da aula eu tomava a última condução que era intermunicipal e ia direto para a casa, passava por debaixo da roleta várias vezes por semana porque o dinheiro não chegava para todas as passagens de ida e volta. 
Você deve estar se perguntando como eu parava em pé. Bom, nem eu sei como parava em pé e muitas vezes acabava capotando com a cabeça sobre a mesa e sendo motivo de piada para os colegas e decepção para os professores.

Assim eu fui, acabei indo parar como estagiária nos Correios e lá ganhei algumas "mães" que se preocupavam comigo e com meus 39 kg em 1,62cm de altura. Ganhei colo, carinho, respeito, alimentos e me dediquei intensamente, eu amava aquela rotina. Nunca me dei bem em happy hours, festas de fim de ano e chegava a ficar roxa de tão vermelha quando alguém vinha falar comigo. Tinha vergonha, tinha medo, tinha traumas. Difícil saber quem estava rindo de mim e quem estava rindo comigo. Nunca me enganei com relação às pessoas, o problema é que até hoje eu demoro para captar suas intenções. Próximo aos dois anos de contrato de estágio que havia sido renovado quatro vezes, fui embora e virei secretária, o que foi traumático para mim...

Na faculdade eu era a mais velha do grupo de meninas, tinha completado trinta anos  de idade e elas tinham cerca de vinte. Não preciso mencionar que me comportava como elas, o que também em um dado momento me feriu a alma. Percebi que estava errada, já haviam esgotado as disciplinas do hiperfoco e passei a zerar as notas... Era hora de me retirar e abandonar um ambiente que tanto amei. 
No final das contas e tendo feito uma reflexão profunda percebo que me faltou direcionamento, tratamento e atenção.


Vejo que Guilherme (meu filho) deve ser tratado como uma pessoa, nem infantil e nem adulta, mas com sua característica única e brilhante de ser. Deixo ele livre para ser quem ele é, gostar do que ele gosta e se desenvolver no seu próprio tempo. Ele tem sete anos, tem muito senso de responsabilidade, tem palavra, é preocupado com o próximo, gentil com as pessoas.... Ele também ama brincar de pular, de imitar gatos, de ser criança, muitas vezes mais criança do que o esperado para a idade.

A verdade é que todo ser humano é diferente. Agora imagine a pessoa que em sua natureza tem um cérebro que funciona fora dos padrões. A luta é grande, o preconceito existe, a exclusão também.
Não tenho a pretensão de criar um mundo ideal para o autismo, mas tenho profundamente o desejo de levar compaixão, amor e entendimento ao maior número de pessoas possível.




Não superestimule seu filho independentemente de ele ser autista ou não. Toda criança precisa de infância, da sua mente livre para criar, para relaxar. Me assusta o fato de terapeutas insistirem que nossos filhos não podem ter a mente ociosa nunca. Enchem de funções uma criança que está em fase de desenvolvimento. Tudo tem um limite, o excesso desgasta, cansa, torna improdutiva e insatisfeita a mente dos nossos pequenos guerreiros. Eles podem até apresentar inicialmente alguma estereotipia quando ociosos, porém precisam aprender a lidar com isso também e somente o tempo e o amor é que lhes poderá proporcionar o auto controle e o prazer pela vida. Pense nisso!

Um beijo muito carinhoso. Fiquem com Deus.

Se tem algum assunto que você gostaria que eu abordasse, me mande sua ideia, ela pode ser o próximo post.

Kenya Diehl
Blogueira, Escritora e Empresária
kenyadiehl@gmail.com
+5551 9 91984264



sábado, 23 de setembro de 2017

O diagnóstico tardio, as amizades e a importância disso para os seus filhos


Autista de alto funcionamento ou autista asperger é o termo que se usa para as formas mais leves de autismo, em alguns casos até mesmo imperceptíveis para os que não tem um olhar mais apurado sobre o transtorno.


Estamos vivendo uma época em que todos dizem não ter preconceito, mas poucos aceitam, acreditam e confiam de verdade em uma pessoa de posse do diagnóstico. Muitos mitos ainda nos rondam, nossa missão não é nada fácil e nossa vida em meio a um mundo cheio de malandragens é muito difícil de ser compreendido.

"Nós Asperges, estamos mais próximos da neurotipia do que do transtorno propriamente dito. Isso nos torna pessoas mais cobradas nas regras sociais, na desconfiança que existe sobre a realidade do diagnóstico e também na dificuldade de se manter em uma rede real de amizades..." (Nando Castro). Por vezes pensam que temos a mentalidade infantil ou que não temos condições de assumir um compromisso sem desistir na metade do caminho.

Existe a sensibilidade ao toque, aos cheiros, aos sons, aos estímulos visuais, mas existe também a sinceridade, a transparência e a capacidade de vencer barreiras que poucas pessoas conseguem sem estar no espectro. Por isso a importância de uma rede de amizades, não exatamente pela quantidade e sim pela qualidade desses amigos que nos tornam mais fortes e inseridos no mundo. Nosso feeling é aguçado e percebemos de longe quem gosta da gente, quem não gosta ou quem é falso. É uma espécie de sexto sentido que não raramente demora para aparecer, podemos facilmente ser seduzidos ou enganados, mas quando percebemos, a impressão nunca será falha.

Não gostamos de ser encarados como seres de outro planeta, como doentes ou incompetentes. Somos diferentes, mas com uma consciência gigante sobre a nossa missão, os nossos direitos e nossos deveres. Quem se aproxima e gosta da gente, é de verdade, do jeito que somos. Isso não quer dizer que queremos ser aceitos a qualquer custo sem abrir mão de nada. Sabemos que precisamos ceder por um lado, enquanto as pessoas cedem por outro e assim temos a chance de nos encontrar bem no meio do caminho.

Mas pare e pense no porque desta busca incessante pelo diagnóstico, por parte de muitos pais e mães de autistas. Imagine-se desajustado do mundo toda uma vida, até o dia que você encontra uma pessoa que “meio que te entende”, casa e: tem um filho autista! Então você passa a virar especialista no assunto e percebe que na verdade você não foi tão estranho assim, mas sim você foi incompreendido, solitário, vítima de amigos, parentes, professores, colegas e uma lista infindável de pessoas que nunca te aceitaram como você realmente precisava...

Resgatar a própria história e buscar respostas para perguntas que não pareciam ter soluções é saudável e esperado por todos que viveram a exclusão social e o abandono. Ajuda, inclusive, a transformar as próprias experiências em lições para ajudar aos nossos filhos a superarem as suas próprias dificuldades, transformando assim um obstáculo em um grande degrau que os impulsionará a serem livres e aceitos não somente pela sociedade, como também por si mesmos.

Eu percebi que meu filho se daria melhor na escola sem a professora auxiliar quando me recordei sobre a minha infância na vida escolar. Percebi que se eu tivesse uma monitora para sair da sala de aula comigo eu jamais teria concluído sequer o ensino fundamental. Minhas fugas da sala de aula eram constantes e minhas pernas pareciam que iriam sair correndo sozinhas se eu continuasse sentada. Até a cor do batom da professora era capaz de me gerar desespero, mas como eu tinha medo de andar sozinha acabava ficando a maior parte do tempo me controlando para permanecer ali, pelo menos fisicamente já que minha mente permanecia constantemente perdida em minhas próprias ideias.

Ao resgatar a sua experiência de vida terás mais compreensão consigo mesmo, mais aceitação com a sua realidade e mais capacidade de ajudar os seus filhos sem o medo do desconhecido. Não estamos vivendo uma época em existam mais autistas, mas sim uma época em que existe uma gama maior de conhecimento por parte dos especialistas e o diagnóstico de pessoas que jamais sequer desconfiaram serem autistas antes de receber a notícia de que seus filhos o são.

Eu, que tive um diagnóstico aos nove anos de idade, que foi escondido pela minha mãe uma vida inteira (para a minha própria proteção), que sofri bullying desde muito pequena, tive hipoglicemia, crises de vômito, de choro, de “anorexia”, de medos, traições e abusos, consegui lutar, morei de forma precária durante muitos anos, dormindo no chão, sem alimentos, sem aquecimento, sem condições mínimas de sobrevivência, consegui trabalhar, namorar, casar, ter filho... Sou empresária, escritora, blogueira... Dei a volta por cima, sempre acreditei que não existiria um mundo ideal para mim, mas que eu buscaria meu espaço por onde quer que eu fosse. Agarrei com todas as minhas forças as minhas amizades o tempo que foi possível, me dediquei a trabalhos que achava que eu daria conta e evitei assumir compromissos dos quais achei que não daria conta de cumprir.

Fica difícil imaginar porque uma pessoa como a gente seja esquecida pelos amigos ou que seja vítima de preconceito. Pois é, acontece que são poucas as pessoas que gostam de sinceridade, isso parece muito bom em um primeiro momento, mas nem sempre se quer ouvir a verdade sobre o seu cabelo estar horrível ou sua bunda estar caída caso você peça a minha opinião. Da mesma forma, pode parecer desagradável eu demorar para perceber que você está cansado e que não quer mais a minha companhia. Ou, ainda, que saio imediatamente de um local em que tenha um inseto voando. Também o fato de não gostar de surpresas coloca as pessoas muitas vezes em decepção, prefiro ouvir antes o que você quer me dizer ou com o que você quer me presentear, não é falta de respeito, é apenas uma segurança de que saberei lidar com a situação.

Posso parecer falsa em não conseguir olhar nos seus olhos em um primeiro momento, mas posso ser mal interpretada com a profundidade do meu olhar, que é capaz de atravessar sua alma caso eu confie em você.

As amizades, a busca pelo diagnóstico tardio, a possibilidade de resgatar sua própria história e desvendar os mais profundos mistérios do seu ser te levam a uma sensação de plenitude e leveza. Não subestime as suas impressões, não se abale com o primeiro péssimo atendimento por parte de um profissional que desmerece as suas impressões e não se entregue sem ter a certeza de que chegou ao fim da linha. Acredite em profissionais de verdade, que irão te ajudar a fazer tão sonhada viagem interior.
Tente ser um pouco melhor a cada dia, mas liberte-se da ideia de perfeição. Seja humilde em falar sobre as suas dores, não tenha vergonha de suas lágrimas e ensine os seus filhos a sentir o que, de fato, deve ser sentido. Um dia eles precisarão entender que todo mundo sente dor e que tentar ser perfeito só te leva ao caminho da solidão. Observe as pessoas ao seu redor. Somente conhecendo o seu próximo é que você será capaz de sentir a real necessidade do que ele realmente precisa e, assim, poderá ser útil de verdade, longe do egoísmo e da busca pelo reconhecimento.

Relaxe, sinta-se feliz e não se cobre tanto. Viva os seus sonhos e se dê sempre uma nova chance, não importa quantas vezes você precisará recomeçar.

Um beijo muito carinhoso, fiquem com Deus.


KenyaDiehl

Escritora, blogueira e empresária


Facebook: Kenya Diehl

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sexta-feira, 15 de setembro de 2017

A vida de um autista - como foi até aqui - sete anos


Gestação de risco, sete meses passados mais no hospital do que em casa. Com trinta e três semanas e cinco dias nasceu o Guilherme, 46cm, 2,025kg, apgar 8-9, extremidades roxo-esverdeadas, placenta igual. Mãe com febre, 39-41Cº, parto cesáreo, de última hora, dificuldade de aplicar anestesia, bolsa rompida há cinco dias, mãe desfalecendo, bebê perdendo batimentos... Nascia o milagre de Deus.

Resumo rápido da nossa história em função de já ter este texto em detalhes no blog... Um mês de UTI, diversas intercorrências, meningite, hemorragia pulmonar, mal convulsivo, cateterismo rompido, infecção, não reação a antibióticos e um sem número de acontecimentos que me fizeram sofrer e crescer...

Após a alta, Guilherme ainda teve uma convulsão em casa e, aos três meses apresentava desenvolvimento e tamanho esperados para a idade. Mas... O tempo foi passando e ele se apresentava sempre muito calmo, satisfeito com tudo, dormindo demais, demorou a sentar, a rolar na cama, a ficar em pé, intestino preso, olhar meio diferente...

Eu sabia que ele seria autista. Eu não queria isso para ele, tinha fé de que passaria despercebido no "gene" que carregava e também no sofrimento que passou desde os primeiros sopros de vida. Me acabei, engordei, emagreci, chorei, ri e lutei muito... Até o momento em que ele não quis mais dormir no colo e eu passei a dormir no berço com ele... (choro ao relembrar)...

Aos treze meses convulsões generalizadas, focais e mal convulsivo que perduraram até os dezenove meses... Próximo aos dois anos parou de comer e passou a perder as habilidades da fala que já havia conquistado. Desenvolveu hipoglicemia, hipotermia, hipotireoidismo, hérnia hiatal e hipotonia muscular com perda de massa óssea, nessa época mal parava em pé...


Me isolei do mundo com ele, por um ano, sem sair de casa, inspirada no filme “meu filho meu mundo”, entrei no universo dele e o trouxe para o meu.

Gui tinha um extenso vocabulário de palavras soltas, mas não sabia as utilizar, nem se quer ecolalias ele fazia. Movimentos repetitivos, crises de choro e de nervos, noites sem dormir, sem comer, praticamente sem viver... Meu casamento foi para o espaço, eu não era mais a mesma, ninguém mais se encontrava e nossa vida virou um verdadeiro caos...

Mas aos poucos ele foi melhorando, com muito empenho, pouca cobrança, aos quatro anos ele comia um alimento por vez, repetia as frases que ouvia, sem muito sentido, sempre tentando  adequar à sua realidade.

Enfrentei todo o mais que todas as mães de autistas enfrentam. Problemas digestivos, de sono, de ecolalias, de estereotipias, de críticas e descrença dos familiares, de perda de amizades, de solidão, de medo, frustração e vontade de sumir...

Guilherme trocou de escola oito vezes, até estar no lugar e no momento que são realmente bons para ele. Trocou também inúmeras vezes de médicos, de terapeutas e foi afastado de muita gente que não o compreendia.

Sempre cantei com ele, conversei muito e nunca deixei de pedir sua opinião para tudo, contar sobre minha vida e sobre os meus sonhos, ainda que parecesse que ele não me ouvia. O fato de ter vindo do autismo me trouxe uma sensibilidade muito grande perante o autismo e o universo particular dele.

Sempre fui muito direta com ele, ordens curtas e diretas, muito carinho, insistência e paciência. Evitei o tempo todo em pensar sobre o que ele seria no futuro. No fundo eu sempre soube que se eu me dedicasse integralmente ao momento presente eu teria certamente um amanhã melhor, isso me fez forte e corajosa. O que eu queria era que ele não sofresse. Se ele estava feliz, eu estava feliz, se ele estava triste eu estava tentando buscar uma solução para lhe fazer feliz. Meu raciocínio logico e pontual fez com que eu tivesse coragem de passar pelas turbulências sem medo de fracassar. Eu confiava mais em mim do que em qualquer pessoa sobre o que era melhor para ele.

Passei anos traduzindo a ele o que ele sentia, o que ele pensava e tive o dom de aceitar todas as dores dele sem querer as evitar a todo custo, chegando muitas vezes a sentar e chorar com ele dizendo que realmente nossa situação com o mundo não era das mais favoráveis...

Dei ao Guilherme uma noção de amor e de realidade que poucos adultos têm coragem de fazer. Ensinei ele a ler minhas expressões, de tristeza, de braveza, de alegria, de leveza... E desde muito cedo o ensinei a entender que se eu estava triste e chorando esse era um direito meu e que isso nada tinha a ver com ele. Ensinei ele a separar nossas dores, nossos medos e nossos sonhos. O direito dele acabava onde começava o meu e vice-versa.

Atualmente (2017) Gui está sendo brilhantemente alfabetizado, largou as fraldas noturnas no inverno deste ano, entra na escola sem chorar, não precisa de professora auxiliar, não tem estereotipias, é muito bom em trocas, tem um altruísmo admirável e a única briga em que se envolveu na escola foi para defender uma amiga que estava apanhando. Come de tudo, conta o que acontece quando está longe de mim, assiste a filmes, desenha, viaja para longe de casa, consegue ouvir, olhar nos olhos e sabe que o centro do universo não está nele, mas sim no mundo que o cerca e que o completa.

Sempre que um comportamento inadequado aparece eu corrijo de imediato, como estalar os dedos ou se bater... Guilherme é esperto, apronta suas traquinagens, a ponto de eu muitas vezes ter que me segurar para não comemorar ao invés de dar bronca, afinal, preciso educar, mas vê-lo na cozinha raspando um pote de Nutella com a colher ou escondendo uma lata de coca cola aberta na mochila são coisas que realmente me deixam feliz...

Deixo ele livre para gostar do que quiser desde que isso não prejudique os outros, para ser triste o suficiente para assimilar suas dores e se machucar o mínimo para crescer entendo a noção de perigo...

Eu erro sim, erro muito como toda mãe, mas o que nos salva é o hábito da reflexão, da busca por corrigir nossos erros e de entendermos que o mundo nunca será perfeito para nós e que também não devemos nem querer ser perfeitos para o mundo. Respeitamos as pessoas, sabemos exigir nossos direitos e também sabemos a hora certa de abrir mão deles em prol do bem de todos.


Diariamente é uma luta, é um aprendizado novo, às vezes mais fácil, às vezes mais difícil e poucas vezes impossível. O que podemos mudar a gente luta, o que não podemos mudar buscamos aceitar sem se revoltar e muitas vezes choramos sem parar, assim como nossas incontáveis gargalhadas sobre coisas que geralmente as pessoas não vêm a menor graça. Faz parte da vida, ninguém é anormal ou normal. A diferença está na forma como conseguimos vencer as barreiras da vida.

Quanto menos julgamos os outros, mais somos satisfeitos com nós mesmos.

Viva, sorria, chore, dê gargalhadas, grite, se rebele, coma um hambúrguer, olhe as estrelas, faça o que tem vontade, não crie expectativas demais sobre as pessoas e também não as encha de expectativas sobre você. O amanhã a Deus pertence, mas o hoje é um presente que Ele te deu e só você poderá decidir se irá utilizar ou não.
Beijo muito carinhoso,
Fiquem com Deus.
Kenya Diehl
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terça-feira, 22 de agosto de 2017

A vida de um autista adulto de alto funcionamento


Autista adulto – alto funcionamento e os tabus

Era inverno do ano passado, quando resolvi tirar um “peso” de minhas costas e assumir para o mundo que, desde os nove anos de idade convivo com o Transtorno do Espectro autista. Sou escritora, empresária do ramo de locação de motos big trails, blogueira e ativista na luta pela conscientização do autismo. Sou esposa, mãe, filha, irmã e tenho toda uma vida cheia de sonhos, frustrações e também alegrias...


Tenho 34 anos e, quando ouvi falar em autismo pela primeira vez, me lembro do termo asperger, algo que parecia um pouco menos pior do que o autismo propriamente dito... Mas não foi bem assim que as coisas aconteceram.

Ter o título asperger no rótulo da minha “embalagem” me fez viver em uma sombra de que a aqualquer momento eu poderia entrar nas profundezas do autismo e nunca mais sair. Era um sentimento dividido, afinal, o esforço para ser aceita era imenso e a vontade de ir para a lua era proporcional ao medo que eu sentia do mundo. Foi algo guardado por mim e pela minha mãe durante um pouco mais de vinte e cinco anos. Eu não tinha opção, precisava lutar.

Sempre fui diferente, esquisita e sincera. Tinha sérias dificuldades de me encaixar nos padrões esperados para pessoas com a minha idade, não importava a idade que eu tivesse.

Hoje, com toda uma vida construída e com um olhar profundo sobre as coisas e sobre a vida, muitas pessoas me questionam sobre o que ainda há em mim que esteja relacionado ao autismo. Perguntam se fui curada ou se tive a perda do diagnóstico. Infelizmente não posso afirmar que sim, mas posso dizer que diante de todas as maldades do mundo, teoricamente eu me dei bem.

Sou uma pessoa “normal”, quem me encontra pessoalmente me vê sempre com as unhas bem pintadas, as sobrancelhas bem feitas, a maquiagem impecável e o mesmo perfume adocicado que uso há alguns anos... Sou uma pessoa responsável, amável e preocupada com os problemas da humanidade, mas... E sempre tem o mas... Não consigo sair de casa sem maquiagem, chegaram a me perguntar se uso maquiagem definitiva, mas a verdade é que o fato de colocar a maquiagem de manhã e retirar a noite faz parte de um ritual de rotina que me mantem segura. Os cuidados com o meu corpo, a minha pele e os meus cabelos são uma espécie de hiper foco, não consigo ser diferente. Minha casa está sempre impecável e os imprevistos na rotina não são bem vindos. Não saio sem lavar a louça ou arrumar a cama, não que isso vá me fazer mal, mas pensar em entrar em casa com algo fora de ordem me gera medo e medo não é bom para mim. Choro com facilidade, mas sou capaz de não derramar uma lágrima sequer, caso eu seja responsável por segurar as dores dos outros... Me alimento sempre das mesmas coisas, tomo sempre as mesmas bebidas e todas as vezes em que tentei frequentar uma academia de musculação foi um verdadeiro desastre, até o dia que resolvi montar minha própria academia em casa.

Tenho medo de insetos, barulhos muito altos me incomodam e praticamente não sinto dor, quando sinto é porque já chegou ao nível avançado para qualquer ser humano. Cheguei ao ponto de ir trabalhar de salto alto com dois dedos do pé esquerdo quebrados para não perder a vaga de emprego que eu havia conquistado... Sou literal ao extremo, falo demais, faço movimentos e expressões de menos e geralmente não sei a hora de parar de me explicar...

Por outro lado, sou uma pessoa alegre, cheia de sentimentos, de sonhos, de desafios, amo amar as pessoas, sou fascinada por música e seriados, tenho paixão por tratamentos estéticos e amo pessoas com necessidades especiais... Sei lá, eles tem um valor diferente sobre as prioridades da vida. Adoro sexo, sim! Autistas fazem sexo, se apaixonam, amam. Isso é um tabu, eu sei, mas independentemente do comprometimento de cada um, temos um corpo físico, cheio de hormônios e com as mesmas necessidades de líquidos, alimentos e – sexo!

Quando gosto de algo, gosto para valer, me apego facilmente, adoro pessoas, adoro enrolar fios de linha entre meus dedos e também tenho fascínio por temporais... Sou muito inteligente naquilo que me interessa, como dirigir, cantar, escrever, amar, me doar ao próximo. Nas faculddades que fiz tirava dez nas matérias relacionadas ao lado humano, mas tirava zero nas disciplicas ligadas às exatas. Sou o contrário da maioria dos autistas que têm bom desempenho com números. Nunca fui muito inteligente e sempre fui voltada para a área de desenvolvimento pessoal.

Não gosto de multidões, odeio mentiras e sou excelente em executar missões que me são confiadas. Meu coração é incapaz de reter mágoas, raiva ou qualquer coisa que seja destrutiva. Sofro muito quando sou mal interpretada, mas se ganho um presente sou eternamente feliz desde o momento em que vejo a embalagem...

Flores me fazem sorrir, sangue me faz chorar, palavras doces me fazem amar. Os toques suaves na pele me doem, mas a pressão feita com força e intensidade me levam ao paraíso. Corto meu próprio cabelo, faço minhas unhas, lavo meu carro, limpo minha casa. A única excessão é a estética que frequento, que é a própria dona que me atende e tem minha confiança de olhos fechados...

O que mais dói é o preconceito, a pré determinação do que acham de mim, das deduções sobre mim que geralmente não são verdade e da falta de honestidade sobre as coisas da vida...

Essa sou eu, sou do bem, sou única, tenho um DNA exclusivo e minha própria forma de enfrentar as dificuldades da vida.

Pare para pensar em quem você conhece que não tenha suas manias e esquisitices... Por isso eu amo a diversidade, aos vários modelos de famílias existentes e, acima de tudo, eu amo as pessoas, as suas almas e as suas histórias de vida.

Sou mulher, sou mãe, sou esposa, sou filha, sou humana, amo a vida e me aceito como sou.

Em novembro será lançado um livro sobre mulheres empreenderoras no qual tenho um capítulo com alguns detalhes sobre minha história de vida. Isso é uma de minhas grandes vitórias, mais alguns projetos que estou colocando em prática, como o meu ebook já publicado falando sobre o autismo e uma terceira publicação sobre a minha vida, sem cortes e nem edição. Tudo isso para motivar pais, mães e autistas a lutarem pelos seus sonhos.

O que molda sua vida? O tanto de conhecimento que adquire ou a forma como o utiliza? Certamente a segunda opção. Todos os seus caminhos são determinados pelas decisões que você toma ao longo de sua trajetória. Há uma força em seu interior que o torna capaz de superar quaisquer obstáculos e a ausência de ansiedade com certeza é o que te proporciona ter a tranquilidade de entender que o seu esforço sempre será recompensado.

Beijo muito carinhoso,

Kenya Diehl

Escritora, empresária e blogueira.
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domingo, 13 de agosto de 2017

Dia dos pais - aos pais de autistas


O mais marcante ato de entrega de um pai talvez seja concretizado no momento da gestação de seu filho. Afinal, a mãe carrega somente para si, durante nove meses, aquele que virá a ser a pessoa com quem terá a mais rica conexão de todas, que conhece pelo cheiro, pelo olhar, pelo som da voz. O pai não tem alternativa senão a de confiar que a mulher irá se cuidar, se alimentar bem para nutrir a criança durante o processo gestacional, que não irá se estressar e nem colocar a vida de seu filho em risco. A mudança é gigante no corpo e na mente da mulher exatamente no momento em que desconfia estar grávida. Mas para o homem, muitas vezes essa informação só é processada quando se vê com um pacotinho nos braços, sem saber o que fazer para acalmá-lo. Então vem a primeira grande decepção. O pai apaixonado se apega ao bebê, tanto quanto a mãe, sangue do seu sangue, geralmente com boa parte de suas feições... Mas quando ele chora é natural que se acalme nos braços da mãe. Se alimenta do alimento da mãe, passa a ser a extensão do corpo da mãe... O homem que tinha uma esposa, que lhe cuidava e trazia segurança, de uma hora para outra passa a ser uma mulher atarefada, ocupada demais com o bebê para lhe dar atenção, e o pior, com uma pessoa bem pequenininha que disputa pelo espaço, tempo e dedicação desta mulher que passa a ser o troféu de quem vence pela maior insistência - pai ou filho. Mas o pai só ganha quando o filho está totalmente satisfeito em suas necessidades e manhas...

A casa não é mais a mesma, a mulher também não, o som ambiente, o ar condicionado, os alimentos, a programação de férias, tudo gira em torno da criança.
O homem que assume a liderança deste caos momentâneo e não se deixa abater pelas dificuldades é idolatrado pela família que o tem como ponto de equilíbrio entre a razão e a emoção. Não é fácil vencer essa barreira inicial e, em se tratando de filhos autistas, tudo fica um pouco mais difícil ou terrivelmente mais difícil...
Pai de menino sonha em jogar bola, consertar carros, assistir ao jogo de futebol, disputar sobremesas... Pai de menina sonha em proteger sua princesa dos ameaçadores meninos de três anos que dão em cima delas, claro papai vê coisa onde não tem! Sonha em lhe dar coleções de Barbies, vê-la tentar usar o salto alto da mãe e ser o maior grande amor de sua vida...E o baque é imenso quando se recebe o diagnóstico. O que fazer com tantos sonhos? Como brincar com uma criança que só gira objetos e não me olha nos olhos, não tenta disputar espaço e também não apronta suas traquinagens para ter aquela conversa séria de final de tarde... Como estar na roda de garotos quarentões que se gabam da esperteza de seus pequenos gênios?

Mãe já vem com o gene da resiliência, da fé, da entrega... Mãe defende que nem fera e é capaz de sorrir por dezoito horas porque seu filho de sete anos aprendeu a puxar a descarga... Mas o pai, este precisa de mais cuidado, seus sentimentos são tão à flor da pele que precisam muitas vezes ignorar o autismo por um bom tempo para não se entregar e desistir de tudo...
Mas o pai que consegue vencer suas próprias barreiras, manifesta-e como um verdadeiro herói, se alegra com pequenas coisas, carrega malas e mais malas com roupas extras, medicamentos e despertadores para não esquecer de nada. Ele deixa para o filho a melhor parte do bolo, a melhor hora da televisão, o lado mais doce de sua mulher... E ainda assim consegue manter o sustento da casa, o bom humor e a coragem. Aprende a ter fé, a orar, a rir sem motivo. Aceita ser chamado de maluco, enfrenta o frio de manhã cedo para trabalhar e se alegra em ver mulher e filho desfrutando da cama quentinha que pode lhes proporcionar... No fim do dia deixa seus problemas do lado de fora e se interessa pelo desenvolvimento do filho, passa a ser perito em assistir vídeos que ele não suporta só para agradar ao filho e ouve atento a esposa contar sobre o que enfrentou durante o dia na luta pelo espaço no mundo.

Homens que abriram mão de muitos sonhos, que desinflaram seus egos, que não esconderam suas lágrimas. Que venceram uma barreira imensamente maior que a da mãe em aceitar o diagnóstico e se orgulhar do filho. Esses homens são pais especiais, maridos especiais e homens sensacionais. 
Existem dias bons, dias ruins, dias excelentes e dias péssimos também. São ciclos que se abrem e se fecham como uma coreografia da vida em que sempre temos que improvisar em cima do tempo. Mas existem os dias especiais, aqueles em que nos sentimos tão bem que guardamos para sempre a lembrança viva de cada segundo experimentado. Que este dia dos pais seja um dia inesquecível e que seu maior presente seja o amor de sua família. Não importa de que jeito ela é. Família é aquela que Deus te permitiu escolher e você é o grande responsável da nobre tarefa de ser atendido pelo nome de PAI. 

Lindo dia dos pais a todos os pais, mães que cumprem o papel de pai e ao Pai de todos os pais - Deus. 
Beijo muito carinhoso. Fiquem com Deus.
KenyaDiehl
Escritora, empresária e blogueira
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domingo, 6 de agosto de 2017

A dura rotina da mãe de autista - o que te faz vencer


​A dura rotina da mãe de autista
Mães em geral nunca param. E a mãe de autista parece ter uma força sobrenatural que, apesar de sentir cansaço e por vezes querer desistir de tudo, isso não passa de mera vontade e logo encontra energia para seguir adiante.
São atividades infinitas, que tomam muito tempo. Desde a hora em que acordam até a hora de dormir estamos funcionando, temos o sono leve, parecemos nunca desligar de tudo. Em situações comuns há as atividades diárias, como lavar roupas, limpar a casa, trocar lençóis, toalhas de banho, lixeiras, manter os armários abastecidos com alimentos, produtos de higiene para a família toda, a geladeira em ordem e a comida pronta. Mantemos as crianças na escola, participamos das reuniões, compramos tudo que é solicitado, ajudamos nos temas de casa, cuidamos dos bichinhos de estimação...
Mães especiais ainda precisam se preocupar com a medicação, o horário e o não esquecimento das doses e também em não deixar o remédio faltar. Precisamos distrair nossos filhos o tempo suficiente para que não se percam em seu mundo, eles não podem passar mais do que alguns minutos sozinhos na sala, pois sua ingenuidade os coloca em risco. Precisamos ensinar cada detalhe, desde como se faz para lavar as mãos até como é possível aguentar o barulho do liquidificador... O detalhe é que para crianças autistas é necessário ensinar muitas e muitas vezes, ser forte para não desistir e não lhes tolher a possibilidade de serem independentes um dia... Temos a forte tentação de fazer tudo por eles, afinal, seria mais rápido, teria menos bagunça para limpar e eles teriam suas necessidades atendidas e sofreriam menos... Mas mantemos o equilíbrio e os incentivamos a fazer as coisas sozinhos, como servir a própria água, ainda que com a mão tremendo e se molhando, temos a paciência de esperar que consigam tirar ou vestir a roupa - tarefa difícil! O dia parece ter umas cinquenta horas...
As viagens intermináveis com terapias e busca por tratamentos eficazes e humanos fazem a nossa energia ir para o espaço de vez em quando... Ainda há as pessoas... Ah! As pessoas, impossível não mencioná-las. Precisamos responder a perguntas como: "porque você não atendeu ao telefone?", "o que tem feito de bom ultimamente?" ou "quando vai conseguir assistir ao filme que te indiquei?". Não percebem a correria que vivemos e quão mágicas conseguimos ser. Geralmente não temos tempo de ir ao salão de beleza, então aprendemos a fazer tudo sozinhas, cabelo, unha, maquiagem, depilação... Sim! Somos mulheres e temos vaidade...
E se a mãe do autista é também autista, certamente é tão cheia de manias quanto seu filho, tem rituais e padrões que acabam por prejudicar a aceitação de ajuda por parte de terceiros, isso dificulta por um lado, mas facilita por outro e no fim das contas sai tudo certinho como planejado.
Nós, mães especiais aprendemos a ser tolerantes, a dar explicações, a ter saídas estratégicas em momentos de crise, batemos de frente com o preconceito e também somos rápidas e estamos sempre sorrindo, principalmente quando alcançamos uma conquista que parecia inatingível, como ouvir o filho nos dizer o que sente ou manifestar o desejo explícito por alguma coisa. Nossos dias, enfim, são agitados de domingo a domingo...
E quando ficamos doentes? Quando sentimos dores ou precisamos de uma cirurgia? A resposta não é nada simples...Existem maridos que dão total apoio e conseguem ajudar bastante, existem mães e sogras dispostas a apoiar seja em qual situação for. Porém, na maioria dos casos a mãe do autista adia a ida ao médico, ignora as dores físicas e esconde as dores da alma. Boa parte delas toma medicamento para ansiedade e para depressão e acaba também ingerindo anti-inflamatórios e analgésicos com frequência. Isso tudo pode esconder algo mais grave... Já vi casos de mães jovens com avc ou infarto fulminante, entre outras situações que chegaram ao extremo. Então, ainda ouvimos comentários sobre nossa felicidade não ser de verdade... Como assim? Nossa felicidade é real sim, mas a sobrecarga também é real. Dificilmente alguém se prontifica para ajudar sem tentar mudar tudo ou sem criticar o excesso de cuidados ou a falta dele com nossos filhos.
Então, quando a doença chega, pode ser uma simples gripe ou um câncer, tudo muda, por uns dias, umas semanas, uns meses ou para sempre. Temos que aprender a delegar funções, a suportar ver nossos filhos insatisfeitos em nos ver acamadas e com medo sem nem saber de que... A casa fica diferente e a segurança da rotina vai para o espaço fazendo com que nossos filhos percam por vezes o equilíbrio...
O que nos mantém de olhos abertos é justamente o amor pela família e o desejo instintivo de fazer nossos filhos felizes... Com frequência sorrimos as lágrimas e gargalhamos as dores... Tudo isso para ver felizes nossos mais preciosos tesouros - as pessoas que amamos.
Cada pequeno progresso é uma vitória conquistada e nossa saúde se restabelece muito mais rápido do que o esperado. A força das mães especiais é superior às dores, aos medos e aos procedimentos médicos. Nossos valores vão muito além da estética e da aparência física, de disputas por medalhas ou da vontade de ter o filho mais inteligente do grupo escolar... Nossos valores vem do espírito, nosso maior sonho é desenvolver a independência de nossos filhos e soberanamente lhes desenvolver a arte de ser felizes e gratos pela vida.
Todas nós viemos ao mundo com uma missão especial. Somos imperfeitas e precisamos evoluir dia após dia. Troque os sentimentos negativos por positivos e experimente a paz que Deus lhe concedeu. Muitas vezes as coisas não saem como gostaríamos, mas viver em conjunto com as pessoas envolve abrir mão de muitas coisas, pois todos querem ter seus desejos respeitados, ainda que parcialmente. Não se culpe por erros que eventualmente você tenha cometido, você fez o que estava ao alcance do seu conhecimento no momento em que tudo aconteceu. 
Valorize-se pelo que você é hoje. Troque a raiva pelo perdão, o medo pela confiança, a inveja por admiração, a crítica por compreensão, a briga por conciliação e a culpa pelo amor, o amor pelos outros e também a si própria como obra única de Deus, pois não há outra igual a você. Não desperdice sua existência com sentimentos ruins, jamais se sinta menos do que alguém, as diferenças existem para que possamos aprender uns com os outros. Da mesma forma não se sinta mais do que ninguém, todos estamos aqui para tornar o mundo mais feliz e a humildade é a chave que abre a primeira porta da realização dos seus sonhos e de sua verdadeira missão consigo mesma e com o mundo.
Beijo muito carinhoso. Fiquem com Deus!
Kenya Diehl
Escritora, empresária e blogueira.
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